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Escapatórias: O gosto pela dança

O gosto pela dança

 

Feito de antagonismos, o gosto pela dança

agita corpo e mente na atração pelos

movimentos repletos de intenções

por Silvia Regina 

  

O gosto pela dança, acadêmica e a aprendida e desenvolvida em convívio social, nada tem a ver com o sutil, o elevado ou o sublime. É um gosto situado no entre do que há de sagrado e de profano da imbricação de intenções, movimentos, ritmos, espaços e tempos. 

Trata-se de um gosto transformador, uma erudição construída de forma empírica, na observação e na experimentação, capaz de adensar, quebrar ou reconstruir as características de um indivíduo. 

Experimentar o gosto pela dança é colocar-se à disposição dela imaginativamente, antes de tudo. Ou seja, permitir à mente que o bailado comece nela, numa execução compositiva dos movimentos que se encadearão e farão o sujeito conduzir-se fiel a outra formulação de ser, estar, viver e sentir. 

Dançar para a festa, para o sexo, para o louvor ou para o espetáculo é permitir que a partir de uma intenção um movimento flua da imaterialidade do pensamento à concretização no corpo do bailarino. Este parece reagir, tornando-se o concreto de uma mistura autista, oscilante em traduções expressivas de todo o tipo de abstração, até o fim da música. Praticamente um poema declamado pelo arfar e o suar. 

Esta tradução coloca junto ao solista, ao partner ou ao grupo, o fim da dicotomia entre o alto e o baixo, o sublime e o mundano. Porque por mais clássica, sofisticada, coreografada, intencionada que seja a dança, ela resulta no corpo com suas dores, odores, trejeitos, e quaisquer marcas falantes de toda uma trajetória. 

Disponibilizar-se a esse gosto seria amotinar-se pacificamente em um ponto onde não é preciso pensar, mas ser o pensamento, dançá-lo. E a dança, o próprio motim, deflagrado nos corpos-mentes disponíveis, avatares da abstração, sempre em crise, na tensão de um movimento que precede outros, todos erotizados que, de tanto o serem, se sacralizam na mais profunda profanidade. 

 

 

 

Sobre a autora
 
Silvia Regina de Jesus é doutoranda e mestra em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduada em Comunicação Social com ênfase em publicidade e propaganda e jornalista por opção. Além disso, é editora de Gostonomia, escrevendo contos e reflexões sobre gosto: a capacidade de apreensão apreciativa da gente e das coisas. É autora de A sensibilidade inteligível do chocolate: uma análise do fazer estésico apreendido, cultivado e comunicado, e  pode ser encontrada em: Domínio Público.gov.br.[http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=167688]

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