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Fruitivas: Noite de saquê

Noite de saquê

Um ponto de um conto embriagado

 

 

por Silvia Regina

O hálito gelado da chuva que passou serpenteava prateado pela pele, como a bebida que acabava de ser transbordada no copo cúbico, sustentado pelo pires incomum. O primeiro gole e um sabor suave e adocicado caiu pela garganta levando para o fundo as aflições e as incertezas, deixando no raso uma alegria tênue, um riso frouxo, palavras que começavam a se desprender e a saltar para fora dos lábios, fugazes e livres.

Os golpes delicados de quente e frio na língua solta deixavam a boca em orgasmos solitários, compartilhados somente pelas expressões da face que se contorcia, involuntariamente, às surpresas provocadas pelos gostos dos alimentos que se combinavam à bebida sem oposições.

Nada nem ninguém se punha em impedimento aos sabores da noite prateada, fresca e cálida. Mais um gole, e as sensações foram intensificadas, tomadas por uma força silenciosa, digna dos mestres do Tai Chi, celebradas por sons que se assemelhavam aos das festas de rua, fogos de artifício ou sinos orientais.

Os olhares já intimidavam mais que o normal. Os pensamentos quase podiam ser ouvidos entre risadas maliciosas, mãos que se tocavam sem se deterem.

Uma pitada de sal na borda do cubo e o último gole grande, molenga e fluído escorregou para dentro, garganta abaixo, destemperando o resto do comportamento que havia sobrado. Mas não se sentiu o sal. Ele ficou depositado no lábio inferior e numa lambida se anunciou naquilo que deveria ter feito pelo paladar.

Mamilos híspidos, pernas bambas e já era hora de ir. Na conta os últimos gestos. Um olhar inquisidor, conferente e desconfiado. Uma boca entreaberta que deixava escapar no hálito manso as sensações desta experiência de embriaguez.

Depois disso, na memória, só um clarão prateado num sopro cambaleante de temperaturas incertas, mas nada hesitantes.

 

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