Frutivas: Chá de jasmim

Chá de Jasmim

por Silvia Regina

Depois de tanto tempo, Marina, mexendo na agenda de telefones do celular, descobriu que ainda guardava o número de Pedro. No instante em que leu o nome listado, sentiu um choque percorrer todo o seu corpo. Imediatamente pensou em apagá-lo, mas não teve coragem. Pensou em ligar. Em seguida, foi acometida por um mal súbito, uma vergonha de si mesma, por ainda desejar ouvir a voz dele, saber como ele estava.

Passando a mão esquerda pelos cabelos, com a angústia que precede os acontecimentos premunidos, relembrou, em um segundo, todos os melhores momentos de sua vida. Em todos eles Pedro estava presente, como um fantasma, que sorria e assombrava as viagens perfeitas, os jantares mais saborosos, as conversas mais agradáveis, as situações mais descontraídas, os momentos de maior paixão. Sempre, tudo foi feito com Pedro. Pedro, Pedro, Pedro, Pedro…

Respirando fundo e atirando o celular contra as almofadas do sofá, como se quisesse manter-se longe de um antigo vício, foi para a cozinha com passos decididos. Tomando o bule de ágata nas mãos indecisas, colocou água para ferver.

Ao se aproximar do armário, levantou-se na ponta dos pés para alcançar a lata de chá de jasmim, escondida entre outros chás e temperos. Nesse momento, tocou em sua última tarde junto a Pedro. Essas lembranças a fizeram recordar de toda a cumplicidade, de todos os carinhos, do romântico desejo, exalado por ele, de sempre estarem juntos. Por onde andaria aquela deliciosa amizade, aquele afeto que parecia alegrá-lo tanto, no início. E que depois foi esmaecendo, pensou ela, até notar-se muito mais alegre que ele. Mas, Marina sabia: o prazer jamais abandonou os olhos esverdeados de Pedro.

No segundo seguinte, girando o corpo como fazem as modelos mais experientes, colocou a lata de chá sobre a mesa e seguiu desconcertada para a sala. Avançou no telefone indefeso e agredido e, selecionou o número de Pedro. Com a respiração ofegante e com a boca praticamente sem saliva, engoliu seco enquanto ouvia o telefone chamar. Quem atenderia? Ele mesmo? Alguém que talvez fizesse companhia àquele que foi o seu maior companheiro? Depois de alguma insistência, Marina ouviu um “- Alô!” – era ele.

Ficou chocada com o que estava fazendo, e a forte sensação de vergonha voltou à sua mente, açoitando-a por ter-se permitido tamanha descompostura, após ter passado tanto tempo sem receber sequer uma única satisfação pelo desaparecimento de Pedro. – O que o teria feito desaparecer assim? – Já quase se sentindo culpada pelo sumiço do desconhecido do outro lado da linha, Marina escuta novamente: “- Alô!” – já com um suave tom de irritação na voz. Tomando coragem como quem toma um solavanco, respondeu com a voz grossa, para demonstrar segurança: “-Alô! Como vai Pedro?”

Ele então, iniciando um diálogo amigável e sorridente, continuou a conversa dizendo que estava bem e que sentia saudades de Marina. Havia acontecido muitas imprevisibilidades desde aquela tarde do chá de jasmim e que, somente por causa da turbulência dos acontecimentos ele tinha se afastado.

Apesar de ser casado e ter uma filha de mais ou menos sete anos, Pedro se dizia potencialmente enlouquecido por Marina, mas não sabia o que fazer. A proposta dele, sempre aceita por ela, mesmo que não de maneira muito cordial, era deixar as coisas acontecerem, pois estavam unidos por pura vontade e isso deveria ser preservado.

Depois de ter de responder que também estava bem e que por acaso encontrou o telefone dele, justificando o motivo do telefonema, o ouviu perguntar: “- Podemos nos ver?”

Marina se calou. E ficou assim por uns segundos, saboreando uma espécie de vitória, há muito por ela almejada. Aqueles tempos de choros noturnos, lenços de papel e nariz escorrido haviam terminado, em uma frase simples. Marina havia ganhado da vida um presente muito raro: ela teria a chance de dispensar o homem que roubara todas as suas alegrias, todos os seus sonhos, todos os seus desejos de felicidade, com um único e redondo “não!”. Mas, no momento em que ia erguer a voz com todo o seu potencial para viver uma vida digna, como a das mulheres que assumem a situação, Marina se acovardou. Pois se lembrou da barba macia de Pedro, dos carinhos ardentes, da saliva maliciosa escorregando por sua pele, passeando por todos os cantos de seu corpo. E lembrou mais, das juras de amor enquanto as respirações eram ofegantes, da crença de que toda aquela situação um dia mudaria e aí foi despertada pela voz mais adorável do mundo chamando seu nome: “ – Marina!”

E então, feliz, mas decepcionada consigo mesma, Marina devolve como resposta uma nova pergunta: “- Quando?” – sentindo sua expressão se aquecer e o calor de seu corpo se perder, terminando nas mãos frias, que agora se enroscavam alternadamente em um fio puxado de sua blusa.

Ao voltar para a cozinha, notou em si um constrangedor sentimento de culpa, por sentir que era apenas uma mulherzinha que não conseguia fazer valer as suas decisões. Descobriu-se, também, mais humana que as outras que preferem a solidão a dividir a cama com um homem casado, que jamais modificará uma vírgula em seu destino, favorecendo o estereótipo da amante amantíssima. Colocou as folhas secas na água. Apagou o fogo. Pegou a sua peneirinha de chá, com indecifráveis cândis em uma das mãos e, com a outra, regou uma xícara com açúcar e seu chá favorito.

Sentada, sozinha, em sua cadeira, mal estofada, Marina foi tomando aos goles o chá de jasmim, que descia fervente por sua garganta. Ela tentava queimar as dores daquilo que jamais viveria, mas, sorria contente, porque, mais uma vez, teria o seu amor aquecido em seus braços.

[janeiro 2007]