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Fruitivas: Fantasia de Carnaval

Fantasia de Carnaval

um conto sobre as máscaras

Por Silvia Regina

Liana nunca havia estado em um baile de carnaval antes. Mas, um dos amigos do namorado de sua melhor amiga, um cara que ela nem conhecia, ia dar uma festa à fantasia para comemorar o aniversário. A festa seria num lugar bacana e ela resolveu que iria. Seria uma oportunidade de se ver e ser vista em algum traje diferente dos de todo dia. E suas amigas jamais a perdoariam se ela rejeitasse o convite.

Com seus trinta e poucos anos, Liana guardava na memória uma falsa lembrança daqueles carnavais da década de 30 ou 40, com arlequins e colombinas rodopiando no meio da multidão. Romance puro.

Suas amigas diziam que nas ruas de Salvador beijaram tantas bocas que nem podiam contar; uma tia de quase 50 anos, contava que já na sua época, nos bailinhos de carnaval do clube, os rapazes não tinham o menor respeito, iam sempre passando a mão e todas as moças. Uma loucura!

Ela não sabia o que pensar. Tinha uma expectativa ingênua preservada em si. Desejava estar num baile de carnaval, de preferência mascarada, assim como os outros convidados. Queria escolher a fantasia mais adequada, e que ela fosse leve e ao mesmo tempo vistosa. Que talvez tivesse qualquer coisa dela própria, um traço marcante de sua personalidade evidenciado, nas cores, nos tecidos; algo que chamasse bastante atenção, mas que não a privasse de dançar e festejar. Afinal, além de ser Carnaval era aniversário do rapaz que, provavelmente, nem saberia da presença dela no local.

Era uma moça simpática, não exatamente bonita, mas era interessante. Bom papo, inteligente. Mas quem saberia disso sem se aproximar.

Liana pensou, não queria nada comum. Ela não tinha nada de melindrosa nem de odalisca. Ela também não queria uma fantasia metida a engraçada, como um hábito de noviça de frente e um fio dental de costas. Não. Ela queria a elegância e a beleza dos velhos carnavais.

Não conseguia se decidir. Pediu opiniões. Suas irmãs fizeram chacota:

– Vá de camisinha!

– Vá de Eva, é a fantasia mais simples e fácil de conseguir!

Ela até se divertiu com as piadas, mas a dúvida persistia. Pensou em vestir algo que mostrasse sua formação política de esquerda. Quis ser uma guerrilheira, mas achou muito proselitista. Pensou em homenagear uma cultura: – Quem sabe ir de grega, bailarina de flamenco, cigana, dançarina de cancã?! Muito complicado.

Foi então que surgiu a ideia de ir atrás de um vestido lindo, coisa de passarela ou de festa chique. Algo que ela jamais usaria em sã consciência, só para não fazer pensar que ela tentava ser mais do que era, para não parecer exibida. Escolheria algo em sua cor predileta e, que trouxesse a ela um ar da arte de Engène Delacroix e Valentino ao mesmo tempo.

Decidida, Liana foi atrás da melhor fantasia de Carnaval que poderia existir: iria fantasiada de si mesma, só que sem as amarras do dia a dia, sem as obrigações, os medos, ou o que era considerado decente, adequado, esperado; tudo isso seria deixado para o retorno cinza da quarta-feira.

Ela queria a experiência do Carnaval. Seria ela mesma em uma noite de alegria, cores e descontração, mas, obviamente, por trás de uma bela máscara, de onde só sairia de vez em quando, para, quem sabe, incomodar.

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