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Entrevista: Bettina Orrico

Ela dita o gosto e as criações culinárias da revista Claudia há mais de 3 décadas, é devota de Santa Rita e inventa moda diante de panelas e telas: professora, artista plástica, escritora e chef, ela é

Bettina Orrico


por S.Regina | fotos Silvia R.


Com a delicadeza própria de poucas pessoas, Bettina Orrico aceita ser a primeira entrevistada de Gostonomia. Fala de alguns de seus medos e de algumas de suas alegrias; exibe sua fé na vida, seus temperos capazes de transformar a trivialidade em iguaria e, a capacidade infinita de se renovar, sempre. Após o lançamento de seu mais novo livro, Os jantares que não dei, em off, ela nos disse que prepara uma nova exposição. Na oportunidade, liberou o acesso a duas de suas telas iniciais e, deixou patente: panelas e telas (com palavras ou tintas) ensinam muito sobre sensibilidade humana.

Gostonomia. Você lançou mais um livro recentemente: Os jantares que não dei. Por que se definiu por escrever sobre momentos que não ocorreram em sua vida? Bettina Orrico. Porque sou muito sonhadora.

E com o que você tem sonhado depois desses jantares que não deu? Eu tenho sonhado em arranjar um argumento para um novo livro. E aí vem uma infinidade de ideias que não me saem da mente. Uma que me veio muito forte é fazer uma história desde o início, quando eu provei uma comida e gostei. Então seria uma biografia culinária minha.

Esse será o tema do seu próximo livro? Não sei se será o tema. Este é um tema que está me fascinando, porque quando eu vi, descobri que tem muita coisa para contar. É divertido o negócio. Não seria uma biografia chata, não!

Você acredita que ao redor da boa mesa se cultiva amizades? Sim. Muitas amizades eu já criei ao redor de uma mesa, com boa ou razoável comida.

É fácil para você comer ao lado de quem não conhece bem? Não é fácil, pois se deve fazer um grande esforço em ser afável, simpática e arranjar assunto para conversar.

E cozinhar para quem você não conhece? Se a pessoa entende de cozinha, se fica uma pouco tensa, mas para as que não entendem, se relaxa…

O que mais você gostaria de ter feito que ainda não fez? Ter viajado mais, por todos estados do Brasil e exterior para conhecer a terra, as artes, a culinária, o povo enfim. (Mas ainda estou viva…)

Você nem sempre morou no Brasil, em que países viveu? Vivi na Itália (Roma), mas conheci outros países (Espanha, Portugal, Suíça, Alemanha, Hungria, Áustria).

E qual foi o melhor lugar para se estar, dentre estes? Logicamente eu posso dizer a Itália, foi onde eu passei mais tempo e, eu sou apaixonada por este país. Não só porque eu sou descendente, mas a terra é muito bonita e muito rica. (Bettina é filha de italiano.)

É mais gostoso morar lá que aqui? Você voltaria a viver fora do país? No começo é uma delícia. Depois de certo tempo (3 anos), o desejo de ser de seu próprio país e não uma estrangeira ataca e agente volta. E olhe que sou filha de italiano. Mas pesa não ter nascido na terra em que se vive.

E qual o melhor lugar para se estar, Bettina? No lugar em que você se sentir bem. Aquele luga em que você está se encontrando ali, está trabalhando, está produzindo, você está se sentindo, assim, plena, esse é que é o lugar. É estranho eu lhe dizer: mas eu prefiro estar aqui, no Itaim Bibi, do que na Av. Sete, vendo o mar maravilhoso da Bahia de Todos os Santos. São Paulo me recebeu bem, São Paulo é minha terra.

Na Bahia você se sente turista? Não. Eu não me sinto turista. Mas eu não me sinto mais da terra. Se eu vou conversar com uma baiana, a baiana já está fazendo um acarajé de uma maneira que eu não conhecia, que não é do meu tempo. Não sabe certas coisas. E não sabe porque é uma baiana bem jovem… talvez eu me sinta…turista?! Não, turista não porque eu conheço muita coisa lá…

Então eles é que são turistas? É na verdade…

Como você se definiria diante de todas estas experiências e experimentações? Uma felizarda por ter recebido tantos conhecimentos (que julgo ainda serem poucos), mas que até hoje dão suporte ao meu trabalho, e à minha vida emocional.

Você crê que, até o presente momento de sua vida, desfrutou de mais gostos bons ou ruins? Durante anos de minha existência, passei por alegrias, sonhos, desejos, tristezas, perdas, dores existenciais bem “brabas”, mas, com o passar do tempo, com muita força de vontade, fé, confiança, sinto que valeu a pena a persistência, em acreditar que eu conseguiria virar a roda da vida (o Samsara). Amanhecer todo dia, sentir que se está viva, ter um programa para vivenciar, é uma dádiva.

O que realmente a vida tem de bom? A vida tem muitos aspectos bons, nós é que não estamos capacitados ou não queremos vivenciá-los. É mais fácil ligar a TV, com suas trágicas notícias, que procurar o seu equilíbrio e escolher a rota a seguir, durante o dia. Uma bachiana de Vila Lobos me garante um bom amanhecer. Até um filho de um urubu que pousou, sem saber ainda voar direito, no pau de um poste, defronte da minha janela me enriqueceu. Entrei, numa boa viagem… pensei: como será sua vida, com sua carinha feia preta, quando começar a voar alto… (é engraçado eu não ter citado o sabiá que sempre aparece. E canta… muitas vezes pessoas que parecem não nos dar nada, se tornam fontes de que vamos beber muito…)

Acha que vive hoje estes aspectos bons? Acho que vivo, sim, mas sempre tenho em mente que poderei viver melhor. Não ser tão severa comigo mesma, aceitar o que não posso mudar, não querer dirigir o que não tenho poder.

Você sempre me pareceu ter muitos amigos, mas também parece ser dona de uma liberdade solitária. Essa minha percepção é verdadeira? É verdade tenho muitos amigos, mas muitas vezes reconheço, sinto essa liberdade solitária, que você mencionou. Eu não chamo solidão, eu não me sinto solitária, eu me sinto às vezes só, apesar de tanta gente perto de mim muitas vezes eu me sinto só.

E você gosta disso? Olha, às vezes eu gosto. Tem momentos que a liberdade solitária é muito gostosa. Na hora que você vai criar alguma coisa, ou vai pesquisar, é muito gostoso. Ou então, num dia que você trabalha muito, com muita gente, abre a porta de casa e se vê só, é gostoso.

É preferível festas e badalações ou um pouco de sossego? Tendo sua hora, tudo é gostoso. A demasia é que estraga!

Você tem outras atividades profissionais. É artista plástica também, além de escritora e professora… esqueci de alguma coisa? Sim, tenho essas atividades que você citou, mas se esqueceu de citar uma: sou uma eterna aprendiz.

Com tantas atividades, o que você costuma fazer para descansar? Relaxo, descanso quando estou em casa, preparo uma receita de minha cabeça, livre de medidas e marcação de tempo. A pintura não é obrigação, descanso com ela, como ouvindo um conserto ou ida ao teatro. Relaxo, descanso demais nos jantares em casa de amigos ou aqui em casa, com pouca gente. Uma delícia! É ficar no nirvana, ler as poesias de meus queridos poetas, como, o que citei no meu livro, Manuel de Barros.

E a cozinha? O que significa para você? A cozinha para mim é meu tempo de vida, bem ocupado. Com momentos felizes, de tenção , apreensão, mas o resultado; é um grande prazer, o ego fica muito amaciado.

Recentemente entendi que os chefes, de maneira geral, se apaixonam por alguns ingredientes, pelo menos por um período. Existe isso? Quais são os seus no momento? Os chefes muitas vezes se apaixonam por um ingrediente e o usam muito. Eu não sou chefe, mas tenho também minhas fases de criar com o mesmo ingrediente as receitas. Já passei por várias: gengibre, pimenta-de-cheiro, leite de coco, tamarindo e outros mais… No momento, para ser franca, não estou com um ingrediente, e, sim, apaixonada pela cozinha peruana. Estou testando em casa as sobremesas peruanas.

Qual a sua receita preferida em termos de sabor? Qual é aquela que você acha mais gostosa de fazer e a que você acha que agrada a um número maior de paladares? Tenho várias receitas preferidas, não somente uma, varia muito, e também precisa ser bem preparada, e honesta. Não usar nome roubado de outra. Uma receita que aprecio é o Tortelli di Zucca. Bem temperado, com amêndoas, com os biscoitos amareto. Aprendi fazer em Parma. Infelizmente, nem todo restaurante aqui sabe preparar. Prefiro receitas simples como, filezinhos de frango cosidos na manteiga e sálvia. Basta. Simples e deliciosa. A receita mais dificil é a que leva poucos ingredientes. Aqui no Brasil para agradar ao cliente ou certos amigos, basta por queijo parmesão ralado em cima de qualquer receita. Catupiry e creme de leite cativam qualquer brasileiro. Para mim, a receita mais gostosa de fazer quando não se tem nada em casa, apenas ovos, é moqueca de ovos, com pirão… Os chefes ficariam escandalizados… essa mulher não cozinha nada…..mas já quebrei muita fome das nove horas da noite, não só minha… é uma delícia!

E para a vida, você teria uma receita de gostos bons e felicidade? Para a vida o maior gosto é aceitação do dia e o agradecimento por estar vivo.

E se o dia for ruim? Agradeça. Se o dia for ruim, agradeça por estar viva. Eu acho a coisa mais maravilhosa sentir essa respiração, ver essa barriguinha subir e descer, subir e descer. Entende? É um negócio assim.


Conheça mais:
Os Jantares que não dei
Bettina Orrico

Ilustrações
Maria Eugênia
Ed. BEI



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Silvia Regina Guimarães é doutora em Comunicação e Semiótica e adora conversar com gente interessante e inteligente capaz de ensinar sobre o aprimoramento humano na Vida. À época da entrevista com Bettina Orrico era doutoranda e desenvolvia um trabalho conjunto com a autora.