Entre o urso e o coelho

Por Silvia Regina Guimarães


Extasiante. É assim que se torna possível nomear o conjunto de sensações construído pela comédia musical O Grande Sucesso, de Diego Fortes, que chegou ao final de sua temporada em São Paulo dia 16 de outubro.

Da coxia (que faz as vezes de um camarim), um grupo de atores coadjuvantes, elenco de uma peça encenada há mais de dez anos, discute a vida com a originalidade de um nonsense cheio de significados profundos, e coloca, a cada diálogo e canção, os paradigmas humanos em cena, provocando questionamentos diversos sobre os valores reais daquilo que é normalmente valorizado individual e socialmente.

Se bem que, de repente, a leitura dos efeitos de sentido da montagem pode ganhar contornos mais políticos que existencialistas, e aí, teríamos que recomeçar.

Da coxia (que faz as vezes de um camarim), um grupo de atores coadjuvantes, elenco de uma peça encenada há mais de dez anos, discute, com muito nonsense,  o Brasil, suas crises e seus enganos, evidenciando sutilmente o ridículo das posturas políticas rivais e promovendo, com deboche, uma visão sobre o estralato nos palcos e diante das câmeras, do cinema, mas principalmente da TV, de onde vem a notoriedade do principal nome da trupe.

Qualquer noção que se queira transmitir, surge como banalidade. A peça é muito mais do que qualquer coisa que se possa lucubrar sobre ela, porque ela permite a cada um, caminhos e conjecturas plurais.

Com diálogos ritmados e pulsantes, a proposta ironicamente colorida, constrói às vistas de um cenário amadeirado, escuro e veladamente atemporal, a personalidade de gente que vive endeusando, sonhando, querendo, buscando, questionando e abandonando, as porções da vida que vivem. Sem noção de nada, assim como todo mundo, o que provoca gargalhadas nervosas nos que alcançam o quão vã pode ser a vida, as personagens brincam com suas atitudes, sobretudo em busca do sucesso em viver a vida, já que nem mesmo saberíamos dizer o que ele é ou quando ele acontece.

A construção de um espaço no devir, é o que há de mais interessante no tempo construído pela montagem. No entre-lugar, aberto, logo de cara, por uma guerrinha entre a popularidade do urso e do coelho, personagens que fazem um prólogo da peça enquanto o público se ajeita entre fileiras e números, já é possível envolver-se nessa atmosfera da ação anterior, da expectativa, da vida vivida e percebida de maneira insólita.

De fato, parece que, como qualquer um, as personagens tentam manter ou criar um lugar razoável nessa insegurança da expectativa; como a fotógrafa interessada em sacar famílias ou a possibilidade delas; e o pianista, que embarca sozinho no esplendoroso som de seu teclado, simplesmente se abstendo de tudo ao seu redor, encontrando, então, a segurança em si mesmo.

O Grande Sucesso, que conta com a presença reverberante de Alexandre Nero, tem um elenco de primeiríssima linha composto por musicistas que se prestam a atuar com o mesmo brilhantismo que encaram seus instrumentos e o layout de seus personagens.

Fragmentos de uma vida sem sentido. Até certo ponto. – No Teatro Vivo, um dos mais aconchegantes de São Paulo, com plateia pequena e ótimos lugares em qualquer fileira e numeração, havia um garotinho, com não mais de dez anos. Em duas oportunidades ele teve a chance de dizer aos atores o quanto não compreendia do que se tratava o argumento. A mãe o convenceu de que era isso aí, como a vida, esse era o grande barato do espetáculo.

Ficha técnica
Elenco: Alexandre Nero, Carol Panesi, Edith de Camargo, Fernanda Fuchs, Fabio Cardoso, Eliezer Vander Brock, Marco Bravo e Rafael Camargo
Texto e Direção: Diego Fortes


silvia-regina-guimaraes_revgostonomiaSilvia Regina Guimarães é doutora em Comunicação e Semiótica e comunicadora social. Pesquisadora dos discursos do gosto, busca amplificar suas observações sobre  o mundo e seus percursos, pensando e escrevendo sobre alguns deles.