Noites vazias

Noites vazias

Por Silvia Regina

Carmela, esse era o seu nome. Nem ela acreditava que esse era mesmo o nome dela. O estranhava assim como estranhava os objetos ao seu redor. Não pareciam ser seus, assim como suas mãos não pareciam ser suas, seus braços e pernas e todas as outras partes daquele corpo que podia ver com olhos incrédulos.

De tanto estranhamento foi ao espelho. Olhou-se e descobriu que não se reconhecia. Não era mais a mesma. Não se lembrava de ser como se via naquele momento. Começou a ficar nauseada e em seguida intrigada.

Ficou parada observando-se por alguns minutos com um grande nó nos pensamentos. Não sabia o que fazer com aquilo, ou aquela ali que lhe olhava com ares de interrogação, decidiu se afastar. Foi andando de costas, sem oferecê-las à estranha que a encarava. Foi se olhando à distância até suas vistas ficarem turvas e úmidas, até se encolher e chorar gritando para descobrir se reconhecia a voz que lhe saia de algum lugar muito profundo.

Quando o choro cessou percebeu-se isolada, em mais uma de suas noites vazias. Lembrou que não conversava com ninguém há dias. Pensou que talvez devesse voltar ao espelho e tentar conhecer aquela pessoa, descobrir em uma conversa franca seus segredos, objetivos e objeções. Pensou em que pergunta faria, tentaria ser divertida, não tão incisiva. Perguntaria se a mulher no espelho defendia um time de futebol, se gostava de jogar, se preferia ir aos estádios ou assistir pela TV. Mas e se ela não gostasse de futebol? — De onde eu tirei que esse seria um bom assunto? – pensou. Resolveu ir até ela, tentaria o improviso.

No caminho até o espelho, outras perguntas vieram à sua mente. Ficou desejosa de que fosse um homem, a tal presença, e que tivesse um nome másculo, como José, João ou Antônio, desejou que ele estivesse lá e que a quisesse de qualquer maneira.

Rindo de seu desejo estranho, foi até o espelhou. Parou e olhou. Olhou fixamente para sua imagem e aceitou que aquela não podia ser ninguém além dela mesma, apesar de não ter certeza do que isso realmente significava. Respirou fundo e deixou de questionar-se, melhor seria descobrir-se. Pintou o rosto. Soltou o cabelo. Escolheu um vestido preto, sem detalhes, e um saltinho confortável, para o caso de ter que andar demais, correr demais ou dançar demais. Pegou a bolsa e olhando-se pela ultima vez no espelho, já com o canto dos olhos confiantes, abriu a porta e saiu. Quem ela procurava em si, deveria estar lá fora.