escapatórias

Em defesa do gosto pela vida – Posicionamento político, ruas e reencontros

O gosto em viver como saída para o medo: direita e esquerda se reencontram no acolhimento do lado certo da História

Por Silvia Regina Guimarães

Às vezes, pessimista, encaro certas atitudes como uma pulsão de morte. Um desejo de ver-se morto, já que não pelas próprias mãos, por falta de coragem ou atrevimento contra o sistema, seja político ou pseudorreligioso, entregando o poder de vida e morte para outrem, para esses que se mostram como valentões, os autointitulados donos da situação, do bom caráter, os ditadores dos bons costumes. Mas, que estão, decerto, entre os mais sujos seres humanos de que se teve notícia na última década. Farsantes.

São uma farsa que engambela incautos. Como? Boa pergunta, ainda não entendi. E pra dizer a verdade, nem tenho ânimo de gastar minha já gasta energia psíquica tentando; ainda que numa conversa ou outra me atreva a ensaiar algumas teorias. Tudo meio conspiratório, confesso. Mas acho que pode ser só desejo de morrer, mesmo. Sem nada mais impressionante por trás.

Essa gente não consegue ser “senhor” e, não se enxerga como “escravo”, apesar de sentir correr no sangue das próprias veias o abusador e sua vítima. E nesse desencontro, a morte de si mesmo viria como redenção. Mas, isso é só uma teoria.

Nunca tivemos acesso a tanta informação, tirando de qualquer um o direito à ingenuidade. Mas, parafraseando Umberto Eco, sabemos que a Internet e suas redes sociais fizeram ascender ao posto de grandes arautos da verdade, gente molto scema, muito idiota, do tipo que reza para pneu, bebe detergente e diz estar numa cruzada para poder voltar à cozinha e assar bolos para o marido.

Ficassem em casa assando seus bolos e, quem sabe, coletando novas receitas nos sites de culinária ao invés de propagar tolices nas redes e vencer um pleito eleitoral “indesejado”. Ficassem em casa, desenvolvendo novas receitas de bolos com cobertura e recheio de detergente sabor coco ou construindo templos onde o Pai Pneu estivesse no altar.

Ou esta não seria uma saída mais digna do que atravessar o caminho dos demais com impropérios?

As ruas e a vida público-política devem pertencer a quem olha a democracia com gosto. Não interessando muito se à direita ou à esquerda. Para defender uma candidatura, antes de qualquer movimento público, o indivíduo precisa entender que o outro tem o mesmo direito à existência que ele mesmo. E ainda que defendendo doses de exploração, é preciso garantir o direito à vida digna dos cidadãos de uma nação. Por que senão, como explorá-los? E esse parágrafo foi só para garantir o direito ao pensamento de direita. [sic]

Mas essas pessoas, que desejam o poder para si e não para a coletividade, pagarão o preço da História. Porque a verdade se impõe e desce o morro, e vem para o asfalto das avenidas se exibir e retomar o seu espaço. Atitude fruto da fustigação sofrida, pobre, cansada de ser recontada e desmentida tantas vezes.

As multidões tomaram o país na última semana porque foram acossadas ante a uma distopia iminente: o gosto pela vida da maioria seria vilipendiado, desmantelado mesmo, se o pior vier a ocorrer nas urnas no próximo 25 de outubro.

Correr atrás do prejuízo de 4 ou 2 pontos percentuais, pareceu fundamental. Posicionar-se politicamente sem medo, sem vergonha e sem culpa, e ir buscar pela mão da consciência, aqueles que não quiseram sair para votar no primeiro turno, foi obrigatório. Apelar para o sentimento que ainda une parentes e amigos, inevitável.

E o revide não tardou em chegar. Na mesma semana, já vimos derrubada de canal no Whatsapp, perseguição algorítmica, gente contando suas histórias de expulsão doméstica e adoecimento psíquico.

Contudo, novas buscas e saídas se apresentam tão imediatamente quanto os revides. Muita gente encontrando aliados e refazendo caminhos, voltando a bater em portas que pareciam fechadas e agora se reabrem. Tudo para reconduzir a História do Brasil a um eixo onde caiba mais gente. A um tempo e lugar onde se possa exercitar o prazer de viver a própria vida apesar da História, sem medo de perceber que temos opção.




Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Descubra mais sobre

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo