por Silvia Regina Guimarães
Fiz cinquenta anos. E é estranho escrever que fiz com essa palavra sem trema. Jamais imaginei chegar a essa idade e não poder escrevê-la com trema, cinqüenta, como a escrevíamos quando era criança e pensava nessas coisas. E até a vida adulta, com a chegada da última revisão ortográfica. Perdemos algo gracioso com a eliminação do trema que sempre me encantou.
Mas o fato é que viver e chegar aos cinquenta traz percepções que pretendo revisar aqui brevemente, sou novata nesse ciclo, não teria muito a acrescentar. Mas há algo que me pega demais: os cinquenta não são os novos 30.
Os cinquenta é que se renovaram.
Existe um jeito de ver a meia idade que não existia quando eu tinha cinco anos e perdi minha avó, com cerca de cinqüenta e cinco. Era comum morrer tão cedo, e esse conceito de “cedo” não existia para uma mulher em torno dos cinquenta, naquela época. Ela era considerada idosa.
Hoje em dia, não é possível considerar uma pessoa de meio século como alguém que precisa de atenção especial. Somos potência, relevância e audácia.
Os nossos corpos são fortes e as nossas mentes afiadas. Somos capazes de reinvenção porque adquirimos ciência suficiente sobre nós mesmos, ainda que desatando certos enganos, dando um salve à Metanoia[1], e a abraçando como uma companheira que tardou em chegar.
Ah, se ela viesse mais cedo e nos colocasse de cara com os abismos nos quais insistimos em nos jogar sem cerimônia, sem ritual, como se fosse a última coisa que viveríamos. Maldita inexperiência.
Mas aos cinquenta, pode-se dizer que a experiência chegou. Ainda que não seja muito a verdade, e ainda que estejamos entendendo que o ser humano vive em experiência de transição, correndo entre revisões e reconhecimentos de um si mesmo, sempre em aprimoramento.
E eu quero mais. Para os próximos dez anos quero mais músculos e mais carimbos no passaporte. Quero avançar no progresso das profissões que abracei como minhas e na amplitude das minhas particulares perspectivas, visões de mundo e pertencimento.
Ter cinquenta anos pode ser uma novidade, mas há qualquer coisa de assumir-se uma anciã, que me remete agora a uma respeitabilidade matriarcal. Quero começar a me reconhecer como uma mais velha, aquela a quem se recorre quando a coisa fica pequena, que tem colo para oferecer porque é porto seguro e abraço apertado. Aquela que conhece o remédio porque já se curou da doença.
Se eu puder trilhar esse caminho, talvez esteja atendendo a Vida, ao que parece, ser a sua necessidade fundamental: a evolução em um constante vir a ser.
[1] Metanoia é um termo de origem grega (μετάνοια, metánoia) formado por:
- meta = mudança, transformação, ir além
- nous/noia = mente, pensamento, compreensão
Seu significado literal é “mudança de mente” ou “transformação da forma de pensar”.
Dependendo do contexto, o termo pode ter nuances diferentes:
- Filosofia e psicologia: uma mudança profunda de perspectiva, valores ou visão de mundo.
- Espiritualidade e religião: arrependimento acompanhado de uma transformação interior e mudança de comportamento.
- Desenvolvimento pessoal: um processo de autoconhecimento que leva a uma nova compreensão da vida e de si mesmo.
N.A. aqui faço uso de Metanoia como termo da Filosofia/Psicologia que abraça um entendimento de desenvolvimento pessoal alcançado em momento chave da vida.
Silvia Regina Guimarães é Doutora em Comunicação e Semiótica e Especialista em Psicologia Juguiana. Além de atuar como Analista em Gosto D’Alma, é autora de livros infanto-juvenis, e publica regularmente conteúdos sobre Psicologia, Comunicação e Semiótica do Gosto em Gostonomia e GostonomiaVox.
