A vitória teve sabor de vitória. Mas me parece que fazer a análise agora é fundamental. Precisamos rever o nosso próprio comportamento para entender o que estamos fazendo como membros de um projeto de nação. E será que teríamos mesmo um projeto? Essa talvez seja a grande pergunta que a vitória nos propõe.
Mobilizados, descobrimos um jeito de estarmos juntos e nos comunicar. Entendemos, talvez, que precisamos da democracia para convivermos. E, para essa convivência acontecer, precisamos passar a História a limpo.
São muitos os confrontos que nos tomam e nos colocam em lados opostos de uma mesma complexidade histórica. O brasileiro precisaria talvez se reconhecer como um ser mestiço, não para conquistar um suposto privilégio da parditude, como alguns negros quiseram propalar, mas para que reconheçamos que nesse país, onde geneticamente se comprova que a linha de descendência materna tem raízes afro-ameríndias e a paterna, europeia, entendamos definitivamente que somos parte do oprimido e do opressor. E precisamos nos a ver com isso.
Metade do país parece se odiar. E parece estar imbuído numa missão suicida, solicitando ser bombardeado por um governo estadunidense, desejando ter o país sob golpe para ser engolfado por outro que os faça ser, magicamente, uma outra coisa. Algo que os distancie de sua real condição de vida: o nem isso nem aquilo. Ou, se você preferir, um pouco de cada dor.
Quanto mais minha observação como psicanalista me permite avançar, mais eu reconheço que existe uma dor, muitas vezes inconsciente, mas sempre vergonhosa, de ter as feições do opressor, do tirano, daquele que roubou o solo e a vida dos verdadeiros donos da casa, que violou os corpos de mulheres livres, daquele que vive dos privilégios conquistados por tamanho horror e miserabilidade humana.
Se é um horror ser destituído dos seus direitos como ser que existe na face da Terra por sua cor, sua etnia, sua classe social, é um horror ser o algoz, a menos que haja no indivíduo qualquer dose de psicopatia, para convocar um entendimento de desvinculação com a própria humanidade e sua sensibilidade.
Roubar desvairadamente, mentir desvairadamente, se sentir superior aos demais, tudo isso é problema que se revê no divã, no exame de consciência, no refinamento de si mesmo. E isso é trabalho duro de confronto com as próprias sombras.
É necessário que o brasileiro faça a crítica e repense: será mesmo que só eu e quem se parece comigo, em alguma medida, tem o direito à vida plena?
A diversidade é uma das grandes verdades da vida, e o membro da espécie nascido no planeta, não somente no Brasil, tem direito à existência. (A vida transborda em diversidade no planeta.)
Não interessa se você gosta ou não do jeito que ele vive, aquele outro tem o direito de existir e, assim como você não poderia, ele também não tem o direito de interferir no seu direito de existir. Parece óbvio escrever isso, mas vejo que voltamos ao básico com essa eleição. Todo o cabo de guerra virtual e de demonstração nas ruas foi sobre exatamente isso.
Querer enquadrar um outro num jeito servil de viver, exprime isso. No caso, o outro seríamos todos os brasileiros que não pertencessem à uma mínima casta de entreguistas, para dizer de alguma forma.
Não ser capaz de pensar algo tão básico é que assusta. Entregar a si mesmo aos que atacam o seu direito a ser quem você é, não é, decerto, uma alternativa em função da autenticidade existente em você. E deve-se trabalhar duro no reconhecimento e a autoconscientização dos seus conteúdos para alcançá-la.
O brasileiro precisa fazer as pazes com seu passado para dar a si mesmo do direito de viver o futuro.
Silvia Regina Guimarães, dentre outras profissões é Especialista em Psicologia Junguiana em formação continuada e tem trabalhado como Analista nos últimos anos, atendendo homens e mulheres, casais e grupos de diversas cores e orientações sexuais, e acredita na liberdade democrática de encontrarmos nossos autênticos caminhos em como viver melhor.
