Categoria: Gostonômicas

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Hotel Mariana ensina o que é o verbatim e reaviva a dor da tragédia com amor

 


Talvez você nunca tenha ouvido falar em verbatim, mas é assim que a peça teatral Hotel Mariana, de Munir Pedrosa, com direção de Herbert Bianchi, recompõe o drama vivido pelos sobreviventes do maior desastre ambiental brasileiro.

Com o cuidado de quem repete ipsis litteris o que foi colhido em depoimento, o teatro verbatim é um documentário encenado que, com o auxílio de fones de ouvido, permite ao ator repetir precisamente o que foi dito; no caso de Hotel Mariana, a técnica britânica faz reviver as histórias de alguns personagens que nos emprestam suas perdas como lembrança de que pouco foi feito pelo Vale do Rio Doce, após o rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, em Mariana – MG.

Sem rancor, Hotel Mariana traz à tona a fala delicada e cheia de prosódia do herói local, da poetiza, do folião, da criança, do político, do ativista ou das moças, uma preocupada com os pais, outra com os filhos. Constrói na graça e na desgraça dessas experiências narradas, como em uma conversa, a sensibilização sobre o fato e a vida desde então. Toca a alma da plateia com um detalhamento imposto pela linguagem nua, desprovida de maiores arranjos cênicos, forçando a condição da escuta, tão capaz de impulsionar a imaginação e completar todas as lacunas com a compaixão, talvez, já esquecida pela ausência do assunto nas mídias.

É preciso ouvir e falar sobre Mariana. É preciso verificar como estão e se serão novamente os distritos de Paracatu de Baixo e Bento-Rodrigues.

 

Hotel Mariana

Estação Satyros

Praça Roosevelt, 134

Até 10/07/2017

Sábados e segundas às 20h e domingos às 18h

 

Ficha Técnica

Idealização e pesquisa: Munir Pedrosa

Direção: Herbert Bianchi

Elenco: Angela Barros, Bruno Feldman, Clarissa Drebthinsky, Fani Feldman, Isabel Setti, Lucy Ramos, Marcelo Zorzeto, Munir Pedrosa, Rita Batata, Rodrigo Caetano

Duas montagens que saem de cena em abril, mas deixam a crítica social e a expectativa da reestreia como perspectiva

 

Por Silvia Regina Guimarães


Baquaqua entre a dramaturgia, a produção e o elenco: Dione Carlos, Dawton Abranches, Alessandro Marba, Ton Miranda e Breno da Matta

Com texto de Dione Carlos e Dawton Abranches, Baquaqua: Documento Dramático Extraordinário é uma dessas produções que não se pode deixar de prestigiar. Um espetáculo feito de simplicidades estéticas que enriquecem a imaginação e consolidam uma série de informações dispersas em nosso cotidiano.

Na história do homem Mahommah Gardo Baquaqua tem-se mais do que uma parte das muitas histórias que deixaram de ser contadas aos brasileiros. Ao visitarmos a vida do escritor, a partir da peça baseada em sua autobiografia, nos deparamos com a realidade de um país que vive em seu dia a dia os reflexos da escravidão.

É impossível ficar de fora ou sentir que a história de Baquaqua não nos representa, porque, apesar de sermos pertencentes a um Brasil de muitas cores, possibilidades variadas e, acessos permitidos em oscilantes variações, as mazelas que refletem o trágico começo da nação abalroam nossos caminhos, atravancando nossa evolução de um jeito ou de outro.

É necessária a evidência de que nossa história brasileira não é feita somente de heróis que escravizaram africanos de diversas nações, dizimaram povos indígenas e socaram uma ideia de Deus goela abaixo de todo tipo de não cristão. É preciso falar da existência de sujeitos que como Baquaqua podiam ser cultos comerciantes comuns, roubados de seus afazeres para, escravizados, descobrirem que a heroicidade de um indivíduo, de repente, se dá na resistência, na força de vontade, na inteligência, ou talvez na lucidez de, após anos de escravidão, ainda manter a mente firme para escrever e conseguir publicar um livro.

Perder a lucidez nas muitas formas de viver as mazelas sociais é o itinerário de Iracema Via Iracema, de Suzy Lins de Almeida. Em um ônibus que não sai do ponto, Iracema, uma dessas figuras que possivelmente seria encontrada numa fila de transporte público, sem muitas estribeiras, nos conta de maneira muito particular o drama de sua existência. Numa experiência tragicômica, ela envolve os passageiros de quem embarca em seu ônibus numa viagem rumo a muitas reflexões, piadas e mal-estares. Além disso, permite ver aqueles invisíveis, quase sem rosto, que vociferam o que parecem ser contextos desconexos, rebeliões internalizadas e fugas de lugar nenhum. Uma trama dirigida de maneira sempre surpreendente e envolvente, num espaço que sempre contou muitas histórias.

Baquaqua
Até 23/04/2017 – Retorno previsto para julho 2017
Cia. Do Pássaro
R. Álvaro de Carvalho, 177 – Centro
Direção: Dawton Abranches
Elenco: Alessandro Marba e Breno da Matta

Iracema Via Iracema
Até 29/04/2017- Quintas, sextas e sábados, 21h
Trupe Sinhá Zózima & Agrupamento Andar 7
Praça Roosevelt, 210 – Consolação
Direção: Anderson Maurício
Elenco: Luciana Ramin