Por trás da cena: tudo é arte no Rio

Texto e foto: Silvia Regina Guimarães

 

É no través que a beleza carioca se pronuncia. É de frente. É de verso. No caminho da Praia Vermelha ao Pontal, a expressão relaxada de quem faz parte da paisagem deixa tudo mais bonito. Não se sabe se tem trânsito, só se ouve o chiado da espuma; não se sabe se tem mal-estar, só se nota a cantilena risonha de esses e erres.

No rosa-azul disputado pelo céu e o mar, vê-se uma mendiga sentada num banco do calçadão. Ela olha o ar despreocupada. Tranquila, como quem nada espera, como quem nada teme. Apenas é, vê, sente e deixa estar. Deve sonhar, com a brisa em ondas batendo nas costas defendidas, no outono, pelo blusão com capuz.

Na areia, a canção, o boteco, a comidinha, o menino e suas bermudas; cabelos longos e uma ginga florida, folgada, sustentada pelas pernas firmes e morenas, ainda que claras, douradas como tudo fica a certa altura do dia. Refresco no Rio sempre quente.

Calor. Às nove e pouco, o show para todos os sentidos continua. Turbulência nos bastidores. Um novo ataque aos ônibus e à vida malemolente do que está em cena. Espetáculo, só que do lado de lá. Será que alguém viu? Fechou o tempo não a cortina. Mas, no final, é sempre verão.

É possível que o inverno chegue. É possível que não se perceba a sua presença, assim como não se percebe que o problema virou paisagem, solução visual. Souvenir. Motivo para camisetas, turismo, ressignificação de termos, inclusive para o estilo de vida.

Já que não tem jeito, o que está fora deve fazer parte da cena. Como se um diretor naquele espetáculo dissesse: “- Leva pra frente que a beleza é tamanha! ”. Quem percebe faz virar poesia. Como as telas reproduzidas manualmente aos montes no calçadão, cópias originais de um mesmo entendimento. Souvenir que com pequenas variações se tornam exclusividades. Tudo é arte no Rio. É como uma bendita maldição .

 

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