O absurdo do açaí em São Paulo

como cantou Nilson Chaves “põe tapioca, põe farinha d’água; põe açúcar não põe nada ou me bebe como um suco que eu sou muito mais que um fruto, sou sabor Marajoara, sou sabor Marajoara, sou sabor”


O

por Marta Assunção

 

 

Marta Assunção é comunicadora social, habilitada em Publicidade e Propaganda. Como forma de expressão, escreve sobre suas reflexões e descreve suas percepções, sempre com simplicidade e objetividade.

 

 

 

 

Vivendo em São Paulo há quase quatro anos, me habituei a ver pelas ruas da cidade açaí a venda. Não como na minha Belém do Pará, cuja região é a de origem da pérola negra da Amazônia. Aqui em Sampa há frutarias, lanchonetes e carrinhos oferecendo o produto com uma variedade de outros acompanhamentos; açaí com kiwi, banana e morango, onde já se viu!? Pois é. São frutas cortadas em pedaços, cereais, leite condensado, aff… junto ao que o povo daqui chama de açaí: uma massa congelada, com textura de creme, adoçada, misturada com xarope de guaraná e sei lá o que mais.

E não para por aí. Não bastasse o “açaí na tigela” agora tem o “açaí no barco” que também estão chamando de sushi de açaí, já que a ideia foi fazer um combinado para servir tal e qual o prato japonês; no barco tem até confeitos, M&M’s, Kit Kat e Bis.

Para uma paraense (eu) que cresceu tomando, isso mesmo, lá na minha terra nós tomamos açaí, natural, batido na hora, com farinha grossa de mandioca e carne, qualquer carne no meu caso (bovina, peixe, frango, embutida), é quase uma ofensa isso tudo. Ainda temos que aguentar ouvir que esse jeito de comer é estranho, o modo tradicional, cultural, herdado de indígenas e caboclos.

Fique sabendo o resto do Brasil que esse jeito de comer foi inventado há pouquíssimo tempo, na década de 1990, quando as outras regiões do país descobriram o fruto, suas propriedades nutricionais e o seu potencial comercial.

Eu comparo o açaí ao chocolate. Nós estamos acostumados a comer chocolate industrial, com muito açúcar e recheios; quando temos a oportunidade de experimentar um chocolate puro cacau, por exemplo, achamos ruim, amargo, intragável até. O mesmo acontece com o açaí, in natura. E em sua defesa reforço: ele não é amargo, nem tem gosto de terra como alguns descrevem;  tem um sabor único e peculiar, incomparável a qualquer outro.

Mas, vá lá! Melhor tentar fugir da gourmetização do açaí e tentar entrar na onda dos sommeliers. Se o melhor vinho é aquele que você aprecia, o melhor açaí é o servido com  democracia gastronômica. Do jeito de lá ou do jeito daqui o importante é termos o açaí como cantou Nilson Chaves: “(…)põe tapioca, põe farinha d’água; põe açúcar não põe nada ou me bebe como um suco que eu sou muito mais que um fruto, sou sabor Marajoara, sou sabor Marajoara, sou sabor”.

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