Urbano, urbanoide e roçaliano

o sucesso do erudito e popular Elomar Figueira Mello surpreende em São Paulo e supera as expectativas de bilheteria em tempo, público e gosto


  

Como quem se senta para puxar uma prosa sob o alpendre de um roçado, Elomar se aproxima mansamente do público que o espera com silêncio e avidez. Puxa o violão ao lado da cadeira e entoa uma canção profundamente delineada, dominada por um dedilhado complexo e palavras de um vocabulário particular, que narra amores, conta causos e oferece lições.

Com a sofisticação do que pareceria simples, o artista permanece no limiar de uma tríplice fronteira, delimitando algum lugar entre o urbano, o urbanoide e o roçaliano, como ele mesmo propõe, “Elomar Figueira Mello e Camerata: Loas de São Paulo!” foi um show que contribuiu para o entendimento do termo “rock’n roll” no melhor sentido do último final de semana.

Disponível nas noites de 15, 16 e 17 de setembro, sempre às 19h15, na Caixa Cultural São Paulo, Elomar deixou claro porque é considerado um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos. Versado numa erudição ímpar, compõe do popular ao erudito, passando com astúcia pelo Rap, fazendo troça da ignorância complexada de quem acha que sabe mais.

Elomar, pela riqueza de sua obra, merece ser conhecido e reconhecido até o umbigo do Brasil, mesmo que a contragosto de seu temperamento claramente arredio, [fez questão de dizer que não gosta dos aplausos, ainda no início do show de 17 de setembro, e arrancou risos da plateia que sabia, não poderia deixar de aplaudi-lo].

Tem que ser de interesse geral reforçar a importância da música de Elomar em todo o projeto de cultura nacional; seria genial ter mais ao alcance dos palcos, na disputa pelos espaços de grande repercussão, a obra desenvolvida por este gênio.

Certamente um dos nossos maiores compositores líricos: com 11 óperas, 11 antífonas, quatro galopes estradeiros, um concerto para violão e orquestra, um concerto para piano e orquestra, um pequeno concerto para sax alto e piano, uma sinfonia, 12 peças para violão-solo e um conjunto com cerca de 50 canções, publicadas em partituras, Elomar contou com a companhia da mezzo-soprano Luciana Monteiro de Castro, a soprano Janette Dornellas, o baixo barítono Fellipe Oliveira, além de João Omar, filho do compositor, no violão, Daniel Silva no violoncelo e Igor Levi na flauta, compondo de maneira singela mas exuberante, o efeito de uma sinfonia.

Mesmo em tempos de Internet, Elomar pouco se permite fotografar ou gravar, e segue do alto de seus quase 80 anos mantendo sua rara aura de homem sertanejo intacta. Ainda assim, segundo os organizadores do evento, levou apenas 13 minutos para esgotar a distribuição de ingressos em sua bilheteria.

Conheça mais:

Porteira Oficial de Elomar

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