O filme da minha vida: uma trilha aberta entre experiências


Como um caminho sobre as muitas possibilidades da ausência do pai, O filme da minha vida pode vir a ser o filme da vida de muitos brasileiros


Sob a direção de Selton Mello, Um pai de cinema, livro do chileno Antonio Skármeta, ganha sua tradução para a sétima arte e se torna O Filme da Minha Vida, com um enredo comovente pela percepção do ser e do estar. Não como em qualquer discussão de botequim poderia fazer parecer interessante. Não. Mas como somente o cinema dos grandes cineastas é capaz.

Baseado no drama do abandono do pai, coisa conhecida de muitos brasileiros, O Filme(…) ganha ares de familiaridade ao exibir a condição movediça da vida, estabelecida pelas vicissitudes das relações humanas, sempre em alteração potencial, como em um vem e vai locomovido entre a vida e a morte, a proximidade e o afastamento, o quer e o não quer mais dos interesses e das experiências.

Num jogo de inteligência e sensibilidade, a narrativa desvela uma outra possibilidade para as expectativas geradas pela ausência do homem na família e convoca o espectador para um outro fim, provocando reações e compreensões diversas sobre a amizade, o amor, a paixão, a cumplicidade e o heroísmo.

Na tentativa do apaziguar a dor de um filho abandonado, Mello, com seu olhar encantado nos faz passear pela singularidade de personagens que ganham protagonismo para além do eixo central, determinado por Tony Terranova, do ator Johnny Massaro; este, encanta pela materialização da chegada à vida adulta de sua personagem, evidenciando um trabalho de corpo delineado por posturas, ritmos e sutilezas, que vão de uma meninice até uma jovial maturidade; os demais atores, nos conquistam com uma construção terna e cálida, capaz de manter um permanente estado de alerta e ansiedade durante todo o percurso de aparente calma nostálgica, relativizada por tonalidades, ambientes e significados, muitos deles. Mello em sua direção não nos polpa de reconhece-los em simultaneidade com o desenrolar da história.

Amor pelo cinema – com referência a alguns clássicos e a um jeito clássico de se fazer cinema, a direção de Selton Mello impacta ao construir uma estética tecida por luzes e enquadramentos que não nos deixam esquecer que o amor pela linguagem cinematográfica nos faz ir além; mas é a mensagem singular da trama que reforça a memória de que no cinema, assim como nas demais artes dramáticas, tem-se um caminho de avanço e modificação no mais particular da trajetória.

Vale sublinhar a mensagem trazida pelas participações de Antonio Skármeta e Rolando Boldrin, maquinista de tantos destinos por sua produção artística: ambas nos permitem pensar que, para chegar a um novo momento, na vida, é preciso se deixar levar.

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