Trocando ideias com Bia Ramsthaler

por Silvia Regina Guimarães

   

Idealizadora e apresentadora do Canal Diversão & Arte, no YouTube, Bia Ramsthaler abre a oportunidade da troca de ideias via cartas, ainda que digitais, em Gostonomia. Com isso, muito além das perguntas e respostas, ela nos conduz por um percurso de evidências de seu jeito de pensar, ser e sentir o mundo, a partir das escolhas que faz. Doutora em Comunicação e Semiótica e ativista teatral, por crer no poder transformador dos palcos, Bia conversa sobre comunicação, cultura, educação, política e vida possível a partir da arte, além de permitir a exibição da cena dessa sua personalidade que ilumina os caminhos cruzados com os seus.


Antes de tudo é interessante saber que as cartas-entrevistas de Gostonomia são uma possibilidade de conversa. Não têm o caráter de uma entrevista comum porque não é uma entrevista comum. São a exibição de um ponto de vista, de um momento, de uma linha de raciocínio que se obteria numa troca de mensagens pautada por um motivo qualquer, um período, em torno de um movimento da vida de alguém. Fragmentos de um perfil, de uma personalidade. A intenção é que você possa fruir da leitura de interesses que por vezes possam ser particulares, por vezes mais generalizados, como quem lê as cartas trocadas por terceiros, neste caso, com total permissão.

São Paulo, 5 de setembro de 2016.

Bia, como vai? Quero iniciar nossa correspondência com uma troca de pensamentos a respeito dos tempos atuais. Tenho observado uma modificação alarmante nos parâmetros do certo e do errado no caráter do brasileiro médio, a grande massa. Gostaria de saber o que passa pela sua mente ao se deparar com as construções da grande imprensa e, porque não, da pequena, sobre os movimentos da nossa sociedade. E o que você observa diretamente nas ruas, por onde você anda, tanto e tão interessada nos movimentos da cultura. Me parece que, com o governo atualizado da maneira como foi, a sociedade assumiu, aplaudindo, mais uma máscara: se antes tínhamos um machismo velado, revelado somente pelos números da violência contra as mulheres que denunciaram, um racismo velado, evidenciado somente pelos números trágicos das experiências de vida e morte da população negra e mestiça, agora temos uma ditadura velada, onde os desmandos ocorrem sob a máscara da democracia, da justiça e do verde-amarelo na cara de uma parte da população que abraça o contexto como uma vitória em nome da pátria. O que tem passado pela sua cabeça diante desse cenário?

São Paulo, 9 de setembro de 2016.

Oi Silvia. Tudo jóia?

Pois é, a fragilidade da sociedade hoje está justamente nessa superficialidade que se estende por diversas áreas que podemos exemplificar a partir de fatos, sendo, é claro, o mais relevante, esta situação política vivida nos dias de hoje. Costumo pensar muito sobre a força do discurso neste espaço de mediação da sociedade. Se pensarmos que a mídia é justamente o espaço da construção e disseminação de discursos, veremos que estamos absolutamente absorvidos pela lógica midiática diante do que pensamos sobre o mundo, diante dos recortes que elegemos para olhar para o mundo, diante dos sujeitos que adotamos como símbolos de tragédias, como é o caso daqueles dois meninos na Síria (o que morreu no mar e o que foi resgatado com vida dos escombros que eram resultado de um ataque contra alvos civis e que ainda atordoado, tornou-se a mais nova imagem das vítimas dessa tragédia humanitária).

Diante da imagem disseminada na mídia, nos comovemos e com o silenciamento da mesma mídia, adormecemos, até o próximo movimento dos discursos que nos levam e nos trazem como o mar, na força da maré. Mas esta maré de que falamos não é involuntária e fruto de uma força natural, pelo contrário, é sempre algo absolutamente pensando, planejado, artificialmente constituído como onda que brinca com a nossa percepção dos fatos não necessariamente forjando inverdades, pelo contrário, na grande maioria das vezes, partindo da “verdade” como uma via de mão única. Dentro de nossa fragilidade de formação temos a tendência a entender que aquilo que nos é apresentado como “verdade” é apenas uma “versão da realidade” e, diante deste dado seria preciso que percebêssemos que uma realidade tem muitos lados. Gosto de pensar na realidade como algo circular, com 360 graus e uma fala apresentada como verdade corresponde talvez a 1 grau destes 360 do total. Só que vivemos cada dia mais mediados por discursos dicotômicos não acha?

Dividimos o mundo pela lógica das duas possibilidades. Há coisa mais empobrecedora para um olhar social do que a ideia de que para tudo só há dois lados? São o branco e o preto, o dia e a noite, a verdade e a mentira, o bem e o mal, o bom e o mau, o céu e o inferno, o vermelho e o verde-amarelo. Assim também olhamos para a cultura e diante destes olhares rasos, frágeis, deixamos que estes textos (ou discursos) sociais mediem o nosso entendimento sobre o campo, os nossos gostos e as nossas práticas culturais.

Penso comigo: como mudar isso? Por onde parte a mudança? É claro que o campo da Educação, politicamente sucateada no decorrer da história, responde pela responsabilidade de parcela importante deste cenário. Mas acho que a questão é também ainda mais profunda… penso: o que os sujeitos que produzem cultura (entendendo aqui este conceito de forma dirigida e não com a amplitude que merece, mas como sinônimo de “expressão artística”) fazem efetivamente para aproximar as pessoas do campo artístico proposto? O que o teatro, por exemplo, faz efetivamente para que as pessoas compreendam o teatro como expressão de arte que transforma, que modifica, que acrescenta e que é, antes de tudo, um prazer. Quando é que o colocamos no campo daquilo que não me pertence, que não me representa, que é erudito demais para que esteja no campo de minha prática cotidiana e cultural? E quando é que tornamos os processos da cultura transparentes para que as pessoas pudessem entender a confusão criada diante do contexto da Lei Rouanet? Ou quando é que efetivamente viramos as costas para a plateia em razão de nossos interesses primários pelo capital, pelo patrocinador, pelo empresário, pela marca? E aí a plateia esvazia. A população ataca e enquadra artista como ladrão, como vagabundo. E a arte perde  conexão com a vida cotidiana que dá a ela a própria vida.

Filosófico não acha? E você, o que anda pensando disso tudo? Eu penso de forma muito crítica, mas é importante dizer que não perco o foco e a esperança e acho que quanto mais difícil é esse cenário, mais temos a contribuir no sentido de movimentar, de não parar, de não desistir diante dos fatos. Tenho uma amiga arte-educadora que um dia me disse: “não vivemos mais o tempo das grandes revoluções. As revoluções agora serão pequenas mas serão essenciais”.

É nisso que também acredito…
Beijim! BIA

São Paulo, 10 de outubro de 2016.

Bia, neste mês e um dia de distância entre a sua resposta e esta minha, que agora segue, algumas coisas mudaram. Mas ainda assim, sem grandes novidades. O que parece mais marcante é o fato de o novo prefeito, inesperadamente eleito em primeiro turno, já ditar as mudanças que esperam a cidade no início do próximo ano. Tudo muito amplamente visibilizado.
E nessa amplificação desvairada dos desmandos que estão por vir, aproveito para compor um trio filosófico, então, junto a você e sua amiga, e engrossar a reflexão sobre as pequenas revoluções. Imagino que, não ignorando o pequeno, residente em nós, podemos trazer novas dimensões às muitas vivências particulares e às que, com os outros, fazemos experimentar.
Pequenos gostos, que mesmo sendo extravagantes, se convertem em minúsculos nas múltiplas relações cotidianas. E, talvez, exatamente por isso se agigantem. (Quanta complexidade, não?)

É aí que me pego pensando sobre a amplitude das relações. Elas nos colocam em contato com os indivíduos e nos fazem alcançar novos patamares mentais. Se encararmos as relações como possibilidades de troca, uma trama de sensações e significados que vêm embolados numa massa sem número de pessoas, não deveríamos encontrar um espaço melhor de convivência?
Na grande imprensa o que parece ser valorizado, atualmente, demonstra estar na contramão de um senso de espécie, um lugar onde, em comunidade, estaríamos juntos e nos favorecendo. Essa linha de raciocínio virou um mais “abominável pensamento de esquerda”, encarado como populista e radical. Parece que ser de esquerda, para esses entendedores, virou sinônimo disso.
Não seria sobre um espaço relacional que deveria atuar as comunicações e as artes, no fazer do jornalismo, da propaganda e de todas expressões artísticas? Não seria essa a responsabilidade de uma produção que coloca todo ser humano em pé de igualdade quanto à sua capacidade lógica, de interpretação e compreensão? Não seria aí que, a Comunicação Social como uma grande área também para as artes, deveria aproveitar para tentar libertar seus interlocutores de uma miséria moral, ética e sensível? 
Tenho a impressão de que a natureza crítica das comunicações e das artes trariam a  oportunidade da educação, para além dessa orientada nos bancos escolares. Temos o exemplo de grandes personalidades formadas por essa cartilha. Será possível que essa área do conhecimento perdeu a direção? Como você tem visto as produções culturais e como você sente que elas são aproveitadas pelo público?

Ele está sendo formado? E de que maneira?

Muito obrigada por essa troca de ideias.
Com o carinho dos melhores amigos.
Silvia Regina

São Paulo, 27 de outubro de 2016.

Oi Silvia,

Em mais um espaço de tempo entre a sua resposta e essa minha, outras tantas experiências e possibilidades se somam a nossas primeiras reflexões, não é? Diria que isso é a vida em pleno movimento.

Diria ainda que suas propostas de reflexões são profundas e provocativas e por isso é preciso tempo para construir um pensamento a respeito. Pensar o ser humano, a sociedade, as artes, a comunicação e a educação é tarefa para poucos pois exige uma disponibilidade enorme e uma vontade de realmente mudar o mundo pois estão nestes pontos, os pilares de qualquer mudança!

Vou direto ao ponto das discussões e reflexões sobre arte, comunicação e educação, pode ser? [Risos…] Te explico: penso que o nosso cenário político é algo extremamente deprimente e ando em um exercício de me distanciar um pouco das questões que o envolvem não no sentido da não participação, mas no sentido da não lamentação. Acho que vivemos um retrocesso político nas esferas Federal e Municipal (caso de SP) histórico e diante deste fato, o melhor é continuarmos sim lutando contra moinhos, mas com o cuidado de não cair na lógica da lamentação diante de tamanha ignorância política que nos aflige… enfim, vamos à arte!

Penso que a arte é por si só crítica. Não acredito numa arte que se distancie da provocação, da reflexão, da crítica, da leitura social, enfim, não acredito em uma arte que se proponha a me fazer rir (por exemplo) sem vínculo algum com as questões sociais. Aliás, esse tipo de arte não me faz rir… Rs. Penso na arte como base para relações que se dão entremeadas por rotinas malucas, pela presença da falta de tempo (sim, a ausência do tempo é a variável mais presente na mediação das relações, não acha?), enfim, penso na arte na mediação de nosso olhar pra sociedade, na sensibilização do ser humano para as questões sociais, na base da educação, como suporte nos processos de comunicação. Acredito que a arte media a vida e é, portanto, parte importante da vida… arrisco a dizer que tenho a sensação de que as vidas daqueles que se distanciam dela se tornam áridas, menos coloridas, mais densas e profundamente pesadas. Penso que o exercício de aproximação da vida que levo com a arte que usufruo (e não necessariamente que produzo) é o exercício da viabilização da vida… será que consegui traduzir em palavras o que estou tentando dizer???

Não sei se consigo alcançar na escolha dessas palavras, qual a importância que atribuo à arte diante da vida… Só ela – a arte – nos salva das densas rotinas que a sociedade nos impõe… Acho que foi Ferreira Gullar que disse “a arte existe porque a vida não basta”. A vida não fica pesada quando a gente se afasta dela? A minha fica… Por isso ela é tão essencial e faz parte daquilo que considero “necessidade básica” pra mim.

Poxa, gostei do caminho de nossas conversas… aliás, sempre gosto… são profundas reflexões filosóficas que, de alguma forma, nos transformam sempre… não acha?

Beijo, BIA


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