Pão, café e doce de leite

Se sobrar um tempo, tente olhar pela janela e enxergar a vida na Primavera. É um exercício interessante. Os dias são ideais: eles acontecem com sol pela manhã, à tarde chovem e, à noite, se acabam em estrelas. As plantas amanhecem orvalhadas, botões de flor estão abertos quando se chega em casa e, a paisagem acaba trazendo sempre uma surpresa boa. Exceto quando é ruim.

Tem que praticar para conseguir ver certas coisas sem se sentir piegas. Olhando pela janela, se vê as chuvas. A cidade de São Paulo parece nunca estar preparada para elas que, já começam fortes na estação e vão se intensificando até a chegada do verão. E, no verão: primeiro as enchentes, depois os incêndios. Sempre com um mesmo estilo de afetados. Isso quando o tempo não é de seca extrema.

E quando, ainda pela janela, se avista o choque dos extremos, surge um reconhecimento: – há algumas surpresas na Primavera que, p#$%@&*!!!, são de estremecer a alma.

Tem que querer ver um potencial favorável nesse momento estranho do mundo, com uma quantidade de gente pronunciada como maioria, dando preferência aos muros nas velhas fronteiras.

Quando será possível compreendê-las como um breve limiar entre os territórios das diferenças que nos aproximam por nos tornar interessantes? Parece que misoginia e racismo voltaram a ser moda nesta estação. “ – Retrocessos cíclicos que só a Primavera traz!”

Diante disso, como crer que a lua no céu, tão distante, tenha algum valor? Como ser capaz de apreender o bem estar de uma mesa posta com pão, café e doce de leite?

A sensibilidade de olhar pela janela e ver, explora as fronteiras entre o salgado, o amargo e o doce, também sentidos na língua. Exercitar-se é preciso para se fazer perceber o potencial favorável de cada uma dessas provocações.

Silvia Regina Guimarães
editoria@gostonomia.com.br

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