Calma na ladeira

 

Reflexões de fim de férias


Da topografia acidentada de Ouro Preto observei o terreno sobre o qual caminhamos agora: um chão traiçoeiro, com cara de passado, prestes a nos derrubar.

É preciso a força e a determinação de um turista ansioso por descobrir o que há virando a esquina, logo após a ladeira, para passar pelo momento; subindo ou descendo, com gana de alpinista, talvez a vestimenta ajude na dispersão do calor do momento, melhorando o desconforto pela falta de preparo que se sente ao encarar o desafio; talvez como parte da paisagem, se devesse estar travestido de história, numa roupagem cheia de reviravoltas barrocas para fazer crer, a si mesmo, que o vindouro se revelará em um novo ciclo, não no desgaste total, não na perda das últimas boas conquistas, ainda nada consolidadas.

Pode ser otimismo, mas essa percepção na pirambeira aponta para mais um recomeço no devir; mesmo que, infelizmente, nos fazendo perder tempo com as reformas do desmantelamento dos últimos 20 anos; um claro impeditivo do avanço brasileiro e da valorização daquilo que em nós é arte.

Que arte? Com certeza não a da desonestidade. Essa é para poucos. Nem todos aqui estão ou são postos acima da lei; nem todos contam com a ajuda da mentira repetida tantas vezes quanto necessário para fazer dela uma verdade em que se queira acreditar. Mas a arte de sobreviver, transpor percalços, suplantar a ruína.

Tal como no que se vê em Ouro Preto e na história que não aprendemos nas escolas, é preciso tentar preservar o que sobrou, conter novos roubos, driblar com astúcia os erros cometidos no passado de antes do nosso crescimento estratégico, político e civil. Será que esse crescimento só foi observado por quem era pequeno? Ah, não! Muitos dos pequenos que se sentiram grandes agora contradizem sua história.

Ironia de um destino desgovernado.

No caminho de volta a São Paulo, a estrada pontua as diferenças construídas pelo tempo no espaço. Ao chegar na cidade, já se ouve o soar da correria e da notícia sobre os cortes nas investigações de trabalho escravo. Entre sirenes e buzinas, depois de ver tanta cena escravagista com o distanciamento da arte, a saliva desce seca pela garganta que precisa engolir mais essa.

De repente, percebo que mesmo sem os paralelepípedos, continua-se na ladeira, descendo ou subindo, sempre atentando à possibilidade da queda.

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